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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

“Não aguento ir ao colégio”: Diego, de 11 anos, suicida-se por bullying na escola


Hoje queremos compartilhar uma história triste com a qual todos nós podemos refletir muito: Diego, um menino de apenas 11 anos, decidiu tirar a sua própria vida no dia 14 de outubro de 2015. A razão? O bullying que ele sofria na escola.

Todos nós sabemos o que é o bullying e o que este assédio psicológico e físico é capaz de fazer na vida das pessoas mais jovens. Mas fica a reflexão… como um menino tão pequeno foi capaz de tomar esta decisão? Nestas situações, não apenas nos chama a atenção a perda de uma vida tão jovem, mas também nos perguntamos se instituições, como a própria escola ou os serviços sociais, não desconfiaram nada a respeito da situação pela qual Diego estava passando.

A OMS, Organização Mundial da Saúde, publicou um informativo há pouco tempo no qual revelou que todos os anos cerca de 600 mil jovens se suicidam em todo o mundo com idades compreendidas entre os 14 e os 28 anos. Dentro desta cifra, o bullying é a causa de pelo menos metade dos casos.

Trata-se de um drama social que todos nós devemos compreender para combater com as estratégias mais adequadas.

Hoje, devemos conhecer o caso de Diego, este menino de Madri, Espanha, que encontrou na morte a única solução para os seus problemas da vida.
O bullying na escola e o adeus a uma criança especial

O menino vivia em Leganés, um bairro de Madri onde passou os 11 anos de sua vida. Diego não quis mais seguir adiante, não quis mais crescer, só desejava ser livre de sofrimentos, de ataques e de pressões que sofria no colégio.

E por isso ele decidiu se jogar da sacada do apartamento onde morava, no quinto andar. Há quem pense que o suicídio é um ato de covardia por não saber enfrentar as dificuldades da vida. Entretanto, a verdade é que ninguém pode criticar a opção que acaba sendo escolhida pela pessoa em um momento como esse.

Neste caso estamos diante de uma criança e a realidade adquire um tom muito grave. Tanto é assim que os pais de Diego decidiram publicar a carta de despedida que seu filho lhes deixou e denunciar o caso à presidente da Comunidade de Madri e ao conselheiro de educação.
O caso de Diego, um bom aluno que não queria ir à escola

Diego tirava boas notas, era um bom aluno e seus pais estavam orgulhosos dele. A sua mãe contou que em algumas ocasiões, quando ela o buscava na escola, ele pedia que ela fosse embora rapidamente, correndo para fugir de algo ou alguém.

Ele só parecia verdadeiramente feliz quando chegavam o verão e as férias,quando ele ficava livre das aulas ou do seu colégio em Leganés. Os pais lembram também que durante quatro meses ele esteve afônico. Uma afonia nervosa que, de acordo com o médico, era certamente causada por algum impacto.

A família nunca soube ao certo que o motivo realmente era o que eles temiam e qual era a realidade que Diego vivia na escola.

Por outro lado, o próprio centro, quando deu início às investigações, explicou que a criança não apresentava nenhum problema e que não havia denunciado nenhuma incidência.

Fica claro que, em algumas ocasiões, os recursos de um centro não são suficientes para detectar o abuso, mas é possível intuir a tristeza de um menino. Os professores a veem, e os próprios colegas de classe que observam os acontecimentos simplesmente se calam.

Atualmente não há nenhum responsável que possa ser julgado ou investigado por causa da morte deste menino, e por isso os pais de Diego buscam, antes de tudo, colocar em evidência a gravidade do bullying, deste abuso escolar que levou a vida de seu filho tão pequeno.
A carta de despedida de Diego

Diego decidiu escrever uma carta de despedida para seus pais. Ele deixou uma nota que dizia “Vejam em Lucho” na janela da qual ele pulou rumo ao vazio.

Lucho era seu bicho de pelúcia favorito, aquele que em seu quarto guardava em silêncio as últimas palavras da vida de um menino de 11 anos infeliz, que dizia adeus aos seus pais de um modo maduro, admirável e emotivo. Porque Diego era, sem dúvida, um menino especial.

As frases que ele deixou foram as seguintes:

“Papai, mamãe, estes 11 anos em que estive com vocês foram muito bons e eu nunca me esquecerei deles assim como nunca esquecerei de vocês. Papai, você me ensinou a ser uma boa pessoa e a cumprir as promessas, e além disso, brincou muito comigo. Mamãe, você cuidou muito de mim e me levou a muitos lugares. Vocês dois são incríveis, mas juntos são os melhores pais do mundo.

Tata, você aguentou muitas coisas por mim e pelo papai, e eu agradeço muito e te amo muito. Vovô, você sempre foi muito generoso comigo e sempre se preocupou. Te amo muito. Lolo, você me ajudou muito com as minhas lições de casa e me tratou muito bem.

Desejo sorte a você para que possa ver Eli. Digo isso porque eu não aguento mais ir ao colégio e não há outra maneira para não ir. Por favor espero que algum dia vocês possam me odiar um pouquinho menos. Peço que vocês não se separem, mamãe e papai, pois somente vendo-os juntos e felizes eu também serei feliz. Eu sentirei saudades e espero que um dia possamos voltar a nos ver no céu. Bom, me despeço para sempre.

Assinado Diego. Ah, uma coisa, espero que você encontre um emprego bem rápido Tata.”

Diego González.


TEXTO ORIGINAL DE MELHOR COM SAÚDE | 07/09/2016
Fonte: http://www.psicologiasdobrasil.com.br/nao-aguento-ir-ao-colegio-diego-de-11-anos-suicida-se-por-bullying-na-escola/

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por que nunca é demais falar sobre o bullying

Estudo detalha os motivos do porquê o bullying, atos de violência intencionais e frequentes contra um indivíduo (geralmente dentro de relações em que há assimetria de poder), requer atenção em todas as fases da vida.

A violência persistente na infância tem o poder de provocar traumas tão profundos em meninas como o abuso físico ou sexual grave, sugere pesquisa com estudantes universitários. O estudo, que envolveu 480 pessoas, indicou também que os efeitos nocivos do bullying podem durar anos e afetam negativamente a saúde mental das vítimas. A pesquisa foi publicada na edição on-line da Social Psychology of Education.

O levantamento é importante porque, enquanto a maioria dos estudos sobre o bullying se concentra em crianças de 3 até 12 anos (e por isso a mídia também relata mais os efeitos do trauma nessa idade), os cientistas estudaram o bullying em estudantes universitários. Os dados sugerem que essa população também está sujeita a traumas e, por isso, políticas de saúde específicas devem considerar suas necessidades.

Para chegar aos resultados, pesquisadores questionaram participantes do estudo sobre uma variedade de experiências traumáticas – incluindo o bullying, o cyberbullying e crimes como roubo, agressão sexual e violência doméstica e da comunidade. O trauma poderia ter ocorrido desde o nascimento até os 17 anos. Os alunos também relataram sobre a presença de sintomas de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).



Os alunos que experimentaram o bullying quando crianças relataram significativamente maiores níveis de problemas de saúde mental na vida adulta, concluiu o estudo. A experiência com o bullying também foi o mais forte fator de risco para sintomas do transtorno de estresse pós-traumático entre os estudantes universitários que participaram da pesquisa, superando outros tipos de trauma, tais como a exposição à violência na comunidade.


Ainda, de acordo com a pesquisa, mulheres sofreram mais com danos emocionais causados ​​pelo bullying e reportaram significativamente maiores níveis de depressão, ansiedade e transtornos do que seus colegas do sexo masculino.

“A prevalência de sofrimento psíquico em crianças que foram vítimas de bullying é bem documentado, e essa pesquisa sugere que o sofrimento psicológico dos estudantes universitários pode ser ligado, em parte, às suas percepções de experiências de bullying na infância”, diz Dorothy Espelage, professora de psicologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e uma das autoras do estudo.

A pesquisadora sugere que o tratamento e a abordagem do sofrimento na universidade deve levar em consideração experiências vividas também na infância.

“É preciso que esforços sejam feitos para desenvolver e implementar programas que aumentem a sensação de poder e de controle dos alunos sobre a sua vida na universidade”, disse Espelage. “Isto seria possível em um clima no campus que promova os laços de apoio entre os alunos e também entre eles e a comunidade.”

06/09/2016 8:04, atualizada às 05/09/2016 22:11

Fonte: http://brasileiros.com.br/D5d0N

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Colégio é condenado a indenizar em R$ 15 mil aluna vítima de bullying



"No momento em que os pais entregam seus filhos menores aos cuidados da escola, esta assume a responsabilidade por sua integridade, seja ela física, psíquica ou emocional, face ao dever de guarda e vigilância intrínseco à atividade educacional". Com essa tese a juíza Priscila Faria da Silva, da 3ª Vara Cível de Taguatinga (DF) condenou um colégio particular a indenizar, em danos morais e materiais, ex-aluna vítima de bullying.

Para a juíza, sendo a escola fornecedora de serviços, sua responsabilidade pelos danos causados ao consumidor-aluno é objetiva, em razão da teoria do risco da atividade, estampada no artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor. 

"Tratando-se de responsabilidade objetiva, não se exige, para fins de reparação, a comprovação da culpa do agente, mas é essencial a prova da existência do dano e a prova do defeito na prestação de serviço, ou seja, a violação do dever de guarda", explicou a juíza.

No caso, a autora conta que estudava na instituição desde 2005, e que, no início de 2011, passou a sofrer agressões físicas e verbais de colegas de classe, juntamente com uma colega, por ambas possuírem problemas visuais. Diz que buscou a coordenadora da escola, por diversas vezes, para intervir junto aos colegas, mas que ela sempre ignorava seus pedidos e colocava "panos quentes" na situação. Afirma que sua mãe, ao procurar a escola, recebeu o mesmo tratamento da coordenadora, que insistia tratar-se de brincadeiras entre alunos. Sem ver qualquer atitude do colégio para coibir os ataques que recebia, sua mãe optou por transferi-la de escola.

Em sua defesa, o colégio alegou que a aluna só fez uma reclamação sobre os fatos e que não houve omissão em face dessa reclamação, pois os alunos foram advertidos e posteriormente tiveram que assinar um termo de compromisso, juntamente com seus pais. Afirmou, ainda, que não houve reincidência, nem qualquer notícia de que a autora estivesse com problemas psicológicos em virtude dos fatos.

Os argumentos do colégio, no entanto, não foram acolhidos pela juíza. De acordo com a magistrada, faltou ao colégio a sensibilidade de constatar que a autora não estava aceitando nem lidando bem com as alegadas brincadeiras, eis que documentos juntados aos autos demonstram evidente queda em seu rendimento escolar, o que deveria ter sido verificado pela escola. "O caso estampado nos autos revela uma clara situação de bullying, que demanda uma atitude proativa da escola, tanto na sua prevenção, quanto na sua repressão, o que não se verificou na prática", acrescentou. 

A juíza destaca que o colégio até tomou medidas na tentativa de contornar a situação, contudo, tais providências foram inócuas para solucionar o problema, tendo em vista que vários pais não assinaram o termo de compromisso apontado pela defesa, e que as agressões dos alunos se perpetuaram ao longo do ano letivo.

Assim, entendendo que "a reação da escola foi 'tímida', ou seja, "insuficiente ou desproporcional" ante os fatos apresentados, e que esta falhou ao não conseguir promover a integração social da autora dentro daquele ambiente escolar, a juíza condenou a escola a pagar R$ 15 mil de danos morais e a pagar os gastos da aluna com tratamento médico.

O colégio recorreu da sentença e a 1ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal deu parcial provimento ao recurso apenas para fixar prazo quanto ao custeio do tratamento psicológico imposto na sentença original. A turma fixou como condenação do custeio do tratamento psicológico da autora o pagamento de sessões semanais durante o período de um ano, com profissional indicado pela autora. A decisão foi unânime. Com informações da Assessoria de Imprensa do TJ-DF.


17 de maio de 2015, 9h00

Fonte: http://www.conjur.com.br/2015-mai-17/colegio-condenado-indenizar-aluna-vitima-bullying

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Para enfrentar o bullying, em tempos sombrios

Como defender relações colaborativas e fraternas, quando crianças aprendem que para ser precisam ter… as melhores notas, lábios rosados, o último modelo de smartphone e corpos esculpidos?



No último 7 de abril foi aprovado pelo Senado projeto de lei que estabelece a data como Dia Nacional de Combate ao Bullying e à violência na escola. Mesmo dia, curiosamente, em que ouvi o relato de uma mãe cujo filho, de 5 anos, havia chegado em casa mordido por colegas pela primeira vez.

Respondendo às perguntas da mãe, o pequeno contou, assustado, que o colega tinha dito que não queria brincar com ele porque era menor e não sabia ler. E que não fez nada porque ficou com medo. Depois desatou a chorar, dizendo que não queria mais ser pequeno ou sequer ir à escola.

A mãe, aflita, falou que teve vontade de dizer ao filho que, quando alguém o mordesse, mordesse de volta e também deixasse uma marca no colega. Mas sabia que isso não seria a melhor saída para o problema, principalmente neste momento em que imperam a violência, o preconceito e a falta de empatia e se clama, urgentemente, por uma educação voltada à cultura de paz.

Ser mãe e pai não é tarefa fácil para os mais experientes, que dirá para as marinheiras de primeira viagem que sofrem com cada mordida e arranhão. A árdua e maravilhosa tarefa de educar para o exercício da cidadania futura, pautada da ética, empatia e consciência comunitária, nos faz refletir sobre os próprios atos perante os outros e exercitar a coerência, diariamente. Também eu, muitas vezes, fico sem saber como agir, como mãe, quando o assunto envolve os limites estabelecidos na socialização das crianças – já que mordidas, apelidos e certas brincadeiras podem deixar marcas profundas nos pais e nas crianças.

O filme sueco-dinamarquês Hævnen (“vingança”, em dinamarquês), no Brasil denominado Em um mundo melhor – dirigido por Susanne Brie e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011 – , nos mostra, de forma belíssima, que o limite entre agressor e agredido é muito tênue. E que, se queremos construir uma sociedade mais humana, devemos refletir sobre nossos próprios atos desrespeitosos, preconceituosos e vingativos ao educar as crianças.

Quão responsáveis somos por atos que, como enfatiza o filme, assumem proporções tão intensas em nível global quanto em nível pessoal? A reflexão moral é imprescindível e urgente. E deve começar com a simples resposta que daremos a nossos filhos quando chegarem da escola depois de ter sofrido uma agressão, assim como o tipo de reação que teremos ao perceber que nosso filho está sendo injusto com os outros.

A discussão sobre bullying está quente. O tema é pauta nas escolas, famílias e sociedade em geral. Especialistas são chamados a dar palestras, depoimentos e receitas de bolo sobre o que fazer em situações de conflito recorrentes entre crianças. As próprias “vítimas” infantis têm protestado sobre discriminações sofridas por colegas – como no recente caso da menina de óculos que viralizou nas redes. E os pais estão cada vez mais preocupados sobre como instruir seus filhos a respeito do tema.

Mas, o que é bullying? Como definir esse comportamento? Como, principalmente, falar com crianças sobre isso? O termo vem do bully, em inglês, que significa amedrontar, intimidar, ameaçar. Qualquer brincadeira ou comportamento que intimide, agrida, ofenda ou exclua, de forma sistemática e recorrente, pode ser rotulado como bullying e até ter consequências legais para os envolvidos – o que mostra que brincadeiras entre crianças podem tornar-se um caso sério. E aí me pergunto: estaremos responsabilizando as novas gerações por conflitos que fazem parte da convivência humana? Ou conflitos rotineiros na socialização das crianças ganharam hoje novos contornos, que os tornam mais difíceis de enfrentar?

O “fenômeno”, na verdade, não é novidade. É sabido que crianças e jovens podem ser bem cruéis no exercício da socialização – até porque estão em fase de formação de valores, tentando entender seus limites e os dos outros. E isso vale principalmente quando falamos de crianças pequenas, ainda sem as habilidades e ferramentas necessárias para expressar com clareza seus sentimentos. É dos adultos, portanto, a responsabilidade de iniciar os pequenos na vida civil, já que eles não conseguem refletir sobre as consequências de suas condutas e não têm formada a capacidade de colocar-se no lugar do outro. A empatia, tão em voga, ainda é para eles algo distante.

É por isso que cabe aos adultos, na família e na escola, educar as crianças para a vida em sociedade, mediando conflitos e principalmente passando valores morais que incentivem relações mais cooperativas e fraternas do que competitivas e discriminatórias. Isso vale ainda mais nos sombrios tempos consumistas que vivemos, quando as crianças aprendem, desde cedo, que para ser precisam ter… as melhores notas, lábios rosados, o último modelo de smartphone, corpos esculpidos – e que ser diferente está fora de moda.

Combate à intimidação sistemática

A lei nº 13.185/2015, que institui em todo o Brasil o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, conhecida também como bullying, em vigor desde o início de 2016, traz uma definição legal para a expressão “intimidação sistemática” – que passa por questões verbais, morais, sexuais, psicológicas, sociais, físicas, materiais e virtuais.

Para além da definição, a lei cria uma política nacional de combate à prática do bullying e assegura atendimento psicológico às vítimas, reiterando as formas e o dever de diligência que escolas (clubes e agremiações também estão elencados na lei) devem ter diante de situações que indiquem haver qualquer tipo de intimidação sistemática contra crianças e adolescentes. Também o cyberbullying, aquele que acontece nas redes sociais, entra no Programa de Combate à Intimidação Sistemática, já que pode ter consequências morais piores do que as do bullying praticado na “vida real” – pois no ambiente virtual as crianças sentem-se ainda mais desamparadas.

A previsão legal é importante, como bem colocou Guilherme Perisse em artigo recente, pois às vezes as crianças escondem o bullying dos adultos, que, por seu turno e não raramente, erram ao tratá-lo como algo normal. Para o advogado do Instituto Alana, com a nova lei fica claro que as escolas, agremiações e clubes não podem mais ignorar as agressões. Da mesma forma, devem promover a conscientização da comunidade escolar, inclusive para orientá-la sobre como agir diante das agressões.

O assunto é espinhoso e difícil, sem dúvida. A saída, a meu ver, está na educação, como prevê a nova legislação. E nesse ponto a lei é mais do que clara, ao dizer que se deve: (i) Capacitar docentes e equipes pedagógicas para a implementação das ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema. (ii) Instituir práticas de conduta e orientação de pais, familiares e responsáveis diante da identificação de vítimas e agressores e (iii) Evitar, tanto quanto possível, a punição dos agressores, privilegiando mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil com a finalidade de se promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito a terceiros, nos marcos de uma cultura de paz e tolerância mútua.

Contudo, a prática não é tão simples como as palavras escritas. E no meu entendimento precisamos, antes de mais nada, rever nossos próprios atos discriminatórios, os mais triviais e rotineiros. Como querer que as atuais e futuras gerações sejam amáveis, conciliadoras e isentas de preconceitos, se temos sido o pior modelo? É nossa responsabilidade ensinar nossos filhos que tolerância, respeito, delicadeza e empatia são valores que devemos carregar por onde andamos – e que isso começa no recreio da escola, na pracinha do bairro, nos comentários aos posts nas redes sociais e, principalmente, dentro de casa.

Uma educação inclusiva deve prevalecer para que as diferenças sexuais, etárias, étnicas e sociais não sejam causa de discriminação, e sim exaltadas como sinônimo da grandeza e beleza do mundo.

Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/para-enfrentar-o-bullying-em-tempos-sombrios/

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Bullying escolar. Veneno para a saúde física e emocional das crianças

Quando você vai a uma reunião com o professor do seu filho na escola, o que te preocupa mais? Suas notas, seu comportamento ou o seu estado de ânimo? Eu não consigo acreditar que um pai ou uma mãe em que o professor comente que o seu filho se porte mal, não respeita a ninguém e ainda por cima torna a vida impossível aos seus companheiros de escola, não tome nenhuma medida para mudar essa situação. E ainda mais, não entendo a escola que vê o assédio moral nas escolas como um simples conflito entre crianças e não como violência, e que além do mais não proteja a vítima nem puna ao agressor. Isso já chega, não? 

Por que continua havendo bullying nas escolas



Isso é o que eu me pergunto uma vez ou outra. Não consigo entender como continua havendo abusos nas escolas. E que não há ninguém que vigie e controle essas crianças no pátio, no refeitório, na sala de aula ou nas portas dos banheiros... Com certeza algum estudante já tenha comentado com o professor ou com a recepcionista da escola que alguém está fazendo mal a alguém. Não tem como não ficarmos revoltados diante de uma violência tão brutal que vá repercutir profundamente no desenvolvimento emocional e social das crianças perseguidas. 

Marcas que ficam na criança perseguida 

Até agora, as pesquisas sobre o bullying concordam que o abuso escolar pode causar dores de cabeça, dor abdominal, problemas de sono, falta de apetite, como também provocar outras doenças frequentes nas crianças. No entanto, os cientistas da Universidade Duke Medicine, Carolina do Norte, EUA, vão mais além. Eles revelam, graças a um novo estudo, que as crianças que sofrem bullying podem experimentar inflamação crônica sistêmica que persiste até a idade adulta, enquanto que os agressores podem experimentar benefícios para a sua saúde graças ao aumento do seu status social que consegue através da intimidação. 

Este novo estudo analisou dados de 1.420 pessoas durante mais de 20 anos. Elas foram escolhidas aleatoriamente e entrevistadas durante a infância, adolescência e na idade adulta sobre suas experiências com o bullying. Foram feitas análises de sangue para observar os fatores biológicos, como medir a proteína C reativa (PCR), um indicador da inflamação de baixo grau e um fator de risco para os problemas de saúde, incluindo a síndrome metabólica e a doença cardiovascular. Encontraram que os níveis de PCR se vêem afetados por uma variedade de fatores de estresse, como a má nutrição, a falta de sono e a infecção, relacionados com fatores psicossociais. Em outras palavras, que a intimidação desenvolve alguns problemas de saúde mais adiante graças ao que altera essa proteína.

Ainda que se estudem sobre os efeitos do bullying nas crianças, acredito que tanto professores como pais podem fazer muito mais para evitar essa violência entre crianças, não é verdade? Sempre é melhor prevenir do que remediar. 

Vilma Medina
Diretora de GuiaInfantil.com

Fonte: http://br.guiainfantil.com/blog/educacao/bullying/bullying-escolar-veneno-para-a-saude-fisica-e-emocional-das-criancas/

quarta-feira, 23 de março de 2016

Polarização cria 'bullying político' em escolas

Uma camiseta com a bandeira da Suíça, país conhecido por sua neutralidade, teria feito com que um menino de 9 anos fosse xingado e ameaçado em uma escola de São Paulo. O motivo? A peça era vermelha.




Segundo seu pai, João - nome fictício - (*) saía de uma aula de inglês no começo de março quando colegas da mesma idade o chamaram de "petista" e disseram que deveria "ser espancado" e "jogado na rua".

O pai do menino descreveu a história do filho em sua página no Facebook. A postagem tem mais de 4.500 compartilhamentos.

"Fiquei muito assustado em ver as crianças repetindo um discurso de ódio", disse o pai à BBC Brasil.

A polarização política, que tomou conta de ruas e casas no país, está chegando às escolas. Pais, professores e alunos ouvidos pela reportagem contaram que a política nacional tornou-se assunto nas salas de aula. Lá, meninos e meninas com opiniões ligadas à esquerda e à direita se dizem constrangidos por colegas que pensam o contrário.

"(Meus amigos) explicam que a Lava Jato é roubar dinheiro das pessoas pobres. Às vezes, no recreio, ficam falando que o Lula está roubando dinheiro de todo mundo e que a Dilma não presta, é comparsa dele. Chamam ela de trouxa, idiota", diz Luisa, de 9 anos.

Ela conta que os bate-papos acontecem na hora do lanche e que até os "preços muito caros da cantina" são colocados na conta do governo. "Falam que é culpa da Dilma, do Lula e da Lava Jato."

"De vez em quando, ela me pergunta o que é corrupção. Dou exemplos do dia a dia, não de política. Eles são muito pequenos para se envolver nisso. Hoje conversam muito na escola e chega a ter bullying", diz a vendedora Karina, mãe de Luisa.

Coordenador de ciências humanas do Pueri Domus, um dos colégios mais conhecidos da capital paulista, Ricardo Lourenço diz que os alunos do ensino fundamental estão trazendo a opinião dos pais para a classe. "O frisson veio com força nas eleições de 2014 e nas últimas semanas está ganhando novo fôlego", diz ele.

"Para nós é sempre complicado. De vez em quando, o pai fala na mesa do jantar com uma certa brutalidade, e o aluno repete. No fundamental, ele chega com uma falta de compreensão sobre o tema e posições mais cristalizadas."

'É petista, é petista'

A professora de inglês Christina, 40, diz que os filhos dela se sentem "excluídos e acuados" com as discussões cada vez mais frequentes sobre política.

No Facebook, Christina contou o que aconteceu com seu caçula, de oito anos, quando ele chegou na escola na quinta-feira (17), um dia depois da manifestação contra o governo na Avenida Paulista.

Segundo ela, a maioria dos colegas estava de preto, "em sinal de luto pelo país" e, quando viram Luis de uniforme, começaram a apontar para ele repetindo "é petista, é petista". O uniforme é branco e azul.

Ela e o marido são contrários ao impeachment, uma minoria entre os pais do colégio no Itam Bibi, zona nobre de São Paulo. A região teve panelaço durante a posse de Lula como ministro da Casa Civil e Luis foi um dos poucos que não foram para as janelas gritar 'Fora Dilma'.

"As crianças têm que poder ir de preto, vermelho, amarelo, sem achar que precisam se vestir assim para pertencer ao grupo", diz a professora, que também é mãe de um menino de 11 anos.

Para evitar embates, Christina tirou as roupas vermelhas "de circulação" e disse aos filhos que não usassem peças dessa cor.

Questionado sobre casos como esse, Luis Claudio Megiorin, presidente da Aspa-DF (associação de pais e alunos do DF) e coordenador da Confenapa (Confederação Nacional das Associações de Pais e Alunos), diz que é melhor prevenir do que remediar.

"Vai levar tempo para gente voltar a usar vermelho. Até para as crianças não sofrerem nenhuma retaliação e nenhum tipo de crítica: evitem usar vermelho."

Megiorin foi com a família aos protestos contra o governo e aconselhou os filhos a não usarem a cor para não serem confundidos com outros manifestantes.

"Os pais que levam os filhos para as manifestações vão incorporando um sentimento de Justiça. Outro dia mostrei para o meu filho de 10 anos o samba (sobre o) Lula e ele começou a rir porque sabia o que tinha ali", afirma.

"Já começo a ver ele e coleguinhas esboçando um 'Fora Dilma' (e outras) palavras de ordem, porque estão vendo o exemplo."

'Ideologia de esquerda'

Se parte dos pais notam uma intolerância maior contra posições à esquerda, há quem diga o contrário. Uma parcela das familias afirma que pensamentos de direita são subjugados em escolas em que haveria uma "doutrinação marxista".

Em suas provas de história, Mariana, 17, normalmente escreve recados criticando o comunismo e Karl Marx. Ela costuma discutir com o professor sobre a abordagem das aulas e se diz isolada do resto da turma por suas opiniões mais ligadas à direita.

O pai de Mariana, o analista de sistemas Roberto, 37 anos, de Brasília, se orgulha das posições da filha e diz que, por causa delas, a adolescente é excluída pelos colegas. Roberto foi com Mariana e a irmã para as manifestações antigoverno em Brasília.

"Minha filha mais velha sente muito o isolamento, foi chamada perante o coordenador por discordar do professor. Ela gosta do Bolsonaro e se fala no nome dele na sala, é zoada."

O advogado Miguel Nagib, do movimento Escola sem Partido, diz que os ambientes acadêmicos devem ser despolitizados. Ele considera que há muitos docentes militantes, que aproveitam as aulas para disseminar visões de esquerda.

"É evidente que também existem professores de direita que abusam da sua liberdade de ensinar para fazer a cabeça dos alunos. Mas são franco-atiradores. No Brasil, quem promove a doutrinação político-ideológica (...) de forma sistemática (...) é a esquerda."

Conversa

Apesar da forte polarização política, a coordenadora do Núcleo de Psicoterapia Infantil da PUC-SP, Ana Maria Trinca, diz que é preciso deixar as paixões de lado ao explicar para os filhos o momento político.

"A função da escola e dos pais é acalmar e colocar as coisas em termos menos radicais."

A psicanalista diz que hoje a emoção transpassa toda a discussão e isso é perigoso quando as crianças usam o comportamento adulto como modelo.

"As atitudes estão muito extremadas. É fundamentalmente emoção. Quando vai às manifestações, a criança está inserida numa festa. Isso a estimula, mas ela não sabe porquê. Se os adultos não estão entendendo, ela não poderá fazê-lo. E aí (se alguém) está de vermelho, a criança é contra. É simples."

Depois das participações em protestos, por exemplo, é necessário conversar, diz Trape. "Em vez de chamar fulano de burro ou de idiota, o pai e a mãe devem explicar a situação, propor uma leitura com menos violência embutida."

No entanto, para o professor da faculdade de educação da USP Elie Ghanem esse diálogo é difícil, porque os adultos sabem tão pouco do processo político quanto os pequenos.

"Eles têm uma dificuldade semelhante, a pouca experiência com a vida política. De modo geral, os adultos são desinformados. Muitos não compreendem a existência dos três poderes nem a relação entre eles."

Para Ghanem, com deficiências nos colégios e no Estado, que não criam condições para o desenvolvimento de opiniões fundamentadas, o jeito é incentivar a busca por informações e o debate em casa.

A escola também tem um papel fundamental na formação de uma consciência crítica, diz a professora do Instituto de Piscologia da USP Marilene Proença.

Ela explica que as salas de aula são ideais para aprofundar a discussão, mostrar as raízes do problema. "Assim saímos desse lugar do bem e do mal, do 'vermelhos versus pretos'."

*foram usados nomes fictícios para as crianças e suprimidos os sobrenomes dos pais de modo a preservar a identidade dos menores.

Ingrid Fagundes
Da BBC Brasil em São Paulo

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160322_salasocial_polarizacao_criancas_if